quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Buda on the road


"Ananda, são os ouvidos, não a percepção intrínseca da mente, que estão sujeitos a equívocos falsos. Um homem com ouvidos doentes ouve um ronco na cabeça, mas não é sua mente essencial imperturbável que desenvolve o ronco, é sua mente-cérebro discriminando de acordo com seus ouvidos doentes. Da mesma forma, ouvidos saudáveis ouvem o som, que é imaginário, no espaço vazio. Saiba então: é porque os ouvidos estão naturalmente investidos da percepção falsa de som que tudo o que você ouve com seus ouvidos é uma marola falsa. Tem sido assim com os ouvidos desde tempos sem princípio; o simples fato de você ter ouvidos é parte do seu carma, sua herança de ações ignorantes cometidas em algum outro momento.

Mas não fique perturbado, Ananda. Visto que é apenas uma questão de tempo até você abandonar esses ouvidos, então você já os abandonou.

Quando você me ouve bater o gongo, as assim chamadas vibrações chocam-se com seu tímpano auditivo e você percebe o som do gongo, mas onde está a fonte desse som? Ananda, é pura e simplesmente um som completamente falso e fantástico. E por quê? Porque, se esse som tivesse sua fonte em seus ouvidos, naturalmente não estaria no gongo, e seus ouvidos perceberiam o som o tempo todo e não seria preciso esperar pelo bater do gongo. Ou então, se o som pertencesse ao gongo e dependesse do gongo e tivesse sua fonte no gongo, e fosse o movimento das ondas sonoras a partir do gongo que estivesse desenvolvendo o som, como então seus ouvidos poderiam conhecê-lo mais do que o bastão que bate no gongo? Se o som não veio nem dos ouvidos nem do gongo, é como as flores imaginárias no céu, uma fantasia no espaço vazio, marolas que os seres sencientes discriminam e chamam de som. O sábio deixa de considerar aparências e nomes como realidades. Quando aparências e nomes são deixados de lado e toda discriminação cessa, aquilo que resta é a natureza verdadeira e essencial das coisas, e, como nada pode ser afirmado quanto à natureza da essência, ela é chamada de 'talidade' da realidade. A 'talidade' universal, indiferenciada, inescrutável (...) Essa lei da ausência de imagem e ausência de som da natureza essencial da realidade última é a lei que foi proclamada por todos os budas. Tão logo cessam o bater e o martelar extravagantes e os movimentos ruidosos do mundo, cessa a imaginação do som, mas a essência da natureza da audição permanece como espaço vazio potencial e puro. Esteja certo de que é espaço vazio, e devido à minha batida no gongo a percepção foi estimulada a partir do sono sem sonho nas profundezas da mente essencial e a audição do som tornou-se manifesta.

Quanto aos sons, que são marolas, você pode insistir que as marolas são reais, mas porque são marolas logo se tornarão não marolas, e portanto já são não marolas na realidade última.

Ananda, a audição do som é um indicativo da condição doentia da névoa mórbida que chamamos de 'ouvidos bons' e que foi decisiva em transformar os seres sencientes em bobos deploráveis de sons falsos desde tempos sem princípio."

Jack Kerouac, "Wake up".

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Nada não

       Partindo da ideia de que, por princípio, todos os entes, mesmo os inanimados, desejam permanecer sendo o que são, e de que a natureza é especialista em boicotar tais aspirações,  Sartre chegou à conclusão de que a angústia frente ao nada é inerente à condição humana, pois que nossa espécie tem, vez por outra, com maior ou menor intensidade, a consciência vertiginosa da contingência e do absurdo da própria existência. Antoine Roquentin encarna justamente a perda total da significação do mundo. Todos os vínculos de intenção que costumavam dar sentido a sua vida se rompem, e ele subitamente é colocado em contato cru com o mero existir.
       Lido o obituário de Deus, perdidas as esperanças de ser eternamente, atropeladas que foram pelo reconhecimento da marcha irrefreável do devir, restam aos homens o tédio, a angústia e a melancolia de sabermo-nos condenados ao desmanche progressivo rumo ao túmulo. Sartre entende o dilema, mas se recusa a cair no pessimismo suicida. O filósofo quis injetar energia nos indivíduos que acham que a vida absurda não vale, e não pela velha retórica dos sacerdotes, mas pela certeza de que a falta de sentido representa a liberdade, a única e inalienável liberdade pela qual os homens podem fabricar os sentidos que bem entenderem para suas próprias vidas. 
       A consciência humana se fundamenta numa relação peculiar com a negatividade. Mesmo quando o sujeito humano tenta se definir pelo conjunto de seus pensamentos e afetos, ainda assim eles aparecem à sua consciência como objetos, e nunca como idênticos a ela. O eu é sempre uma imagem. Dito de outra forma: o homem é o ente pelo qual o nada vem ao seio do mundo. A ideia de destruição só faz sentido para a consciência, que retém o estado anterior da situação e encara a alteração do estado de distribuição da matéria como algo negativo. Em si mesmo, o cenário pós-guerra é pura positividade.
       Analogamente, a percepção da ausência de um objeto só é operada num para si. Notar algo que não está presente tem um quê de delirante, ainda mais porque não atentamos para o fato de que não só a adega está vazia de vinhos, mas também de elefantes, meteoros, meias e abacaxis. Mas é justamente essa intencionalidade arbitrária que revela a liberdade primeira da consciência, que organiza como bem entende o modo de percepção com que lida com o mundo. A falta não impressiona a retina de ninguém, e ainda assim é percebida. Assim, porque permite vivências distintas a partir da mesma base material, a negatividade já é, em si, fonte de liberdade.

       Sim, somos livres, apesar de encalacrados nas contingências naturais. A morte está sempre à esquina, capinando todas as tentativas de fuga. Drummond sentencia,

O pássaro é livre na prisão do ar.
O espírito é livre na prisão do corpo.
Mas livre, bem livre mesmo, é estar morto.

       Só não sendo seríamos imunes às contingências do ser. E, aos condicionamentos naturais - e não falemos apenas dos coveiros que nos querem cobertos de terra, mas de Newton que nos quer, como sua maça, presos à terra – somam-se os históricos, os culturais, os financeiros. O homem não é só transcendência: a facticidade também lhe é constituinte. Marx  bem o sabia.
       Acontece que, no meio do turbilhão dos muitos e incontornáveis fatores que nos cerceiam, as liberdades intestinas da decisão ainda sobrevivem. Mais que isso: não estamos livres de decidir. A todo tempo, estamos a escolher um caminho e abrindo mão de um infinito. Ser homem é ter que escolher, e toda escolha é uma tomada de partido. A facticidade limita o que podemos executar de fato a partir de nossos projetos, mas exatamente por depender unicamente dos objetivos que escolhemos, não é um dado independente e determinante de nossas atividades. Uma pedra em si não tem significado nenhum, e só se torna um obstáculo no meio do caminho sob a luz de um projeto humano, que, por sua vez, pode ser revisto a qualquer momento, dados os caprichos do acaso.
       Talvez seja com Nietzsche que tenhamos que reaprender o amor fati dos estóicos. Quando Zaratustra anuncia a doutrina do Eterno Retorno do Mesmo, é óbvio que não se trata da mesma coisa retornando incessante e inexoravelmente, mas sim de um tornar a vir do instante, que mantém as portas do ser permanentemente escancaradas ao devir. A existência pertence ao devir. As forças da vontade pertencem ao devir. O ser só se diz do devir afirmado, assim como a necessidade só se diz do acaso afirmado. O caos é primeiro à ordem, e o sendo é fonte infinita de liberdade.
       Também Sartre quer que as jogadas individuais sejam exercícios inalienáveis de liberdade. Diz-se que, certa vez, alguém lhe perguntou por que acreditava na liberdade se ele mesmo reconhecia os condicionamentos do mundo. “Porque eu quero. É mais bonito”.

       Acho zen.